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Estética e criatividade às ippurianas negras. Conheça a BiblioMaison

Publicado em 15/12/2025

CATEGORIAS: Boletim IPPUR, Destaques, Notícia PPGPUR, Notícias, Notícias IPPUR

Boletim nº 92, 15 de dezembro de 2025

Dra. Rita Gonçalo
Doutora em Planejamento Urbano e Curadora de Artes
ritagoncalo@ufrj.br

Salão térreo. Fonte: BiblioMaison e Rita Gonçalo.

Você já ouviu falar na BiblioMaison – biblioteca da Embaixada da França, localizada no edifício Casa Europa, no centro do Rio?

Inicialmente intitulada Biblioteca Maison de France, esse charmoso espaço existe desde 1961 às margens do frescor da Baía de Guanabara. Ao ser reformado em 2016, passou a se chamar BiblioMaison, tornando-se um local imperdível na vida cultural do centro histórico da cidade, reunindo uma grande quantidade de obras referentes a todas as áreas de conhecimento e mantendo um espírito libertário, democrático e propício à promoção do diálogo entre múltiplos saberes.

Neste sentido, a missão da BiblioMaison enquanto instituição pública do estado francês no Brasil é promover a visibilidade e o aprofundamento nos estudos das produções técnicas, artísticas e culturais de expressão francesa e de todas as regiões nas quais a língua francesa está presente, incluindo a África, Guianas, Caribe, além de fomentar os olhares cruzados para a cultura brasileira e suas conexões com a França. Em seu programa de ações, a BiblioMaison realiza debates interdisciplinares sobre temas sociais, culturais e políticos, além de sessões de cinema francês e afro-francófono e eventuais apresentações musicais.

Destaco dois de seus principais eventos contínuos: o CICLO CARIBE (estudos em literatura caribenha de expressão francesa, com curadoria de Vanessa Massoni Rocha – UFF) e o CICLO DE HUMANIDADES (debates em filosofia e política contemporânea, com curadoria de André Ricardo Magnelli, editor da Ateliê de Humanidades). Além disso, a Embaixada da França no Brasil está entre os principais fomentadores da tradução de originais francófonos para a língua portuguesa, especialmente aqueles voltados para o diálogo com a democracia e abordagens contra-coloniais. O PAP – Programa de Apoio à Publicação, através do Escritório do Livro e Debate de Ideias, setor da embaixada referente à publicação de livros e debates literários, lança editais anualmente para fomento à tradução, e nos últimos anos dedica o olhar especializado para a valorização da epistemologia negra de autoras e autores de França, África, Caribe e Guianas em seu programa de Atlântico Negro, selecionando obras que falem de arte, poesia, democracia, cultura e memória nas diásporas de outrora e nas atuais.

Imagem 1: Apresentação do grupo Matriarcas do Samba (Mangueira – RJ) e Samba Résille (Toulouse). Imagem 2: Série Flores Negras – Lais Reverte. Imagem 3: Palestrantes Gabriela Barreira, Malu Cavalcante e Luciana Monteiro – Seminário Boniteza Negra. Fonte: BiblioMaison e Rita Gonçalo.

É exatamente neste tópico que gostaria de apresentar minha chegada à BiblioMaison e estimular a comunidade ippuriana a estreitar os laços com esta democrática instituição. Quero destacar a vastidão de saberes negros presentes no acervo BiblioMaison, enaltecendo os padrões culturais africanos e amefricanos, com o compromisso de fazer emergir a modernidade e a humanidade de nosso legado ancestral, outrora coisificado pela experiência colonial e, por muitas vezes, eclipsado nos cânones em estudos urbanos.

Quando da minha formação em Curadoria Contra-colonial pelo corpo de estudos em Artes do Galpão Bela Maré/Observatório de Favelas ano passado, um imenso horizonte se abriu para mim. Tive contato com literaturas que falavam da minha experiência enquanto jovem mulher negra, retinta, que vive entre a Baixada e a Zona Sul, o que trouxe agudeza ao meu senso crítico, um òye¹ diferenciado para sentir que, mesmo na condição de classe média, a nossa cor matiza em múltiplos tons e camadas a condição da mulher negra no urbano.

Da esquerda para a direita: Erika Frazão – superintendente de equidade, políticas afirmativas e diversidade da UFF; Rita Gonçalo – curadora; Roberto Pedretti – diretor da Bibliomaison. Fonte: BiblioMaison e Rita Gonçalo.

Ao chegar na BiblioMaison em 2024 encontro mais que acolhimento: transformo esse lugar de estudos em uma grande casa, onde tenho liberdade para traduzir noutras linguagens e polifonias minha atitude estética e política para o enfrentamento das desigualdades sociorraciais. A BiblioMaison me recebeu como curadora artística e inaugurou a mostra fotográfica Boniteza Negra como Experiência em Processo, por mim organizada, com seminário onde estiveram presentes intelectuais de diferentes áreas, além da exibição de obras de artistas como Renata Felinto, Lais Reverte e Pablo Vergara, que capturaram através das suas lentes mulheres negras, da cidade e do campo, poetizando aspectos enquanto a vida delas estava acontecendo, entregando-nos a beleza enquanto método de existir e de lutar, nas palavras de Christina Sharpe².

Seminário Boniteza Negra. Fonte: BiblioMaison e Rita Gonçalo.

Quem tem a oportunidade de conhecer este ambiente constata que a BiblioMaison reafirma, em cada atividade, seu compromisso de valorizar a pluralidade e os saberes descentrados, contribuindo para a produção de novos sentidos para os desafios contemporâneos da nossa sociedade, dos corpos plurais, das populações LGBTQIAP+, das demais identidades e experiências civis.

Mulher negra, estudante e pesquisadora, você sabe o quanto é importante ter um lugar acolhedor, ausente de opressões cotidianas, para que assim você consiga fluir em sua escrita, ampliar o seu repertório literário, aflorar a criatividade e o debate de ideias. Por isto te convido, com entusiasmo, a conhecer o acervo afroliterário da BiblioMaison. Ali descobrirás muitas referências diferentes, clássicas e contemporâneas, que irão de encontro às tuas preocupações epistemológicas. 

Imagem1: estante de livros com escada no térreo. Imagem 2: visão panorâmica do salão térreo. Imagem 3: Jardim. Fonte: BiblioMaison e Rita Gonçalo.

Estendemos igualmente o convite aos discentes de todos os níveis – graduação, especialização, mestrado e doutorado – assim como servidores técnicos administrativos e professores a desfrutarem do espaço público BiblioMaison e de todo o conforto que a biblioteca pode proporcionar.

A BiblioMaison conta com wi-fi de alta velocidade gratuito em todos os cômodos, ambiente climatizado, salas privativas para reuniões (mediante agendamento prévio), restaurante com café e almoço. Todos estes serviços funcionam de 10 às 17h.

Imagens 1 e 2: salões de coworking. Imagem 3: sala privativa de reuniões. Imagem 4: canto literário infantil. Fonte: BiblioMaison e Rita Gonçalo.

O espaço também estabelece parcerias com as universidades e departamentos que queiram usar as instalações da biblioteca para promover eventos como seminários, debates e conferências. Já os fomentos para iniciativas culturais e acadêmicas podem ser pleiteados a partir dos editais de recursos divulgados tanto pela Embaixada quanto pelo Setor de Cooperação Científica e Ação Cultural – SCAC

Desejamos que você encontre na BiblioMaison um ambiente propício para escrever a partir do seu lugar de experiência e, assim, abrir novas avenidas para a imaginação criativa.

BiblioMaison: Avenida Presidente Antônio Carlos, 58/ 11o andar, edifício Casa Europa, 20020-010, Centro – RJ.

 

1  De origem iorubá, Òye significa inteligência, sabedoria, erudição e compreensão. Entendimento.
2  Cf. Sharpe, C. Notas ordinárias. SP: Fósforo, 2024.

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