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Onde poderemos morar? Como restrições socioeconômicas condicionam o sonho da casa própria em brasileiros de diferentes gerações

Publicado em 16/03/2026

CATEGORIAS: Boletim IPPUR, Destaques

Boletim nº 93, 16 de março de 2026

 

Rafael Kalinoski

Pesquisador visitante na Pontifícia Universidade Católica do Paraná
kalinoski.rafael@pucpr.br

Feirão da Casa Própria

Feirão da Casa Própria 2017 – Fonte: José Cruz/Agência Brasil.

O artigo recentemente publicado no International Journal of Urban and Regional Research (IJURR) por Rafael Kalinoski e Mario Prokopiuk, do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana (PPGTU) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) propõe ler a crise habitacional contemporânea a partir de uma abordagem centrada nas aspirações habitacionais, conceito amplamente discutido nos países desenvolvidos, mas ainda pouco explorado nos países em desenvolvimento. As aspirações habitacionais não são tratadas como preferências individuais isoladas, mas como construções socialmente situadas, moldadas por trajetórias de vida, condições estruturais de acesso à moradia e pelos próprios arranjos institucionais e regulatórios que organizam os mercados habitacionais, permitindo compreender como expectativas, escolhas e frustrações se articulam às transformações recentes das políticas de habitação.

Ao mobilizar o debate internacional sobre aspirações habitacionais, o artigo parte da definição clássica do conceito como a projeção, socialmente mediada, de necessidades e desejos habitacionais futuros, condicionada não apenas por preferências subjetivas, mas pela percepção do que é concebível e realizável em contextos históricos e institucionais específicos. O artigo destaca que as aspirações não se formam no vazio, mas são permanentemente tensionadas por restrições materiais, transformações econômicas e mudanças nas políticas públicas. Nesse sentido, o trabalho dialoga com a literatura recente ao apontar seus limites analíticos, sobretudo no que se refere à operacionalização empírica das relações entre expectativas individuais e contextos estruturais, lacuna que se torna ainda mais relevante quando o foco se desloca para o Brasil, onde a pesquisa sobre aspirações habitacionais é incipiente.

A partir desse enquadramento, o artigo adota abordagem intergeracional para compreender como essas aspirações persistem, transformam-se ou entram em conflito com as condições objetivas de acesso à moradia. Ao reconstruir as trajetórias de Baby Boomers (1945-1964), Geração X (1965-1984), Geração Y (1985-2000) e Geração Z (2000-2003, neste recorte), o estudo demonstra como modelos normativos de acesso à habitação, particularmente a centralidade da casa própria, um sonho enraizado no Brasil a partir das influências lusitanas, foram historicamente produzidos, transmitidos e atualizados, mesmo em contextos de profundas transformações nos mercados de trabalho, no sistema financeiro e nas políticas urbanas. Ao evidenciar o descompasso entre expectativas herdadas e condições contemporâneas de acesso à moradia, especialmente entre as gerações mais jovens, o artigo argumenta que a persistência da aspiração à propriedade não pode ser interpretada como inércia cultural, mas como resultado de estruturas institucionais que continuam a associar segurança, estabilidade e mobilidade social à posse do imóvel, ainda que esse ideal se torne progressivamente menos acessível.

 

Como a pesquisa foi feita?

 

A pesquisa quali-quantitativa propõe um modelo replicável para a mensuração de aspirações habitacionais em grupos geracionais previamente definidos, entendidos pelos autores como um avanço metodológico em um campo ainda marcado por abordagens predominantemente qualitativas ou descritivas. A pesquisa baseou-se na elaboração, testagem e aplicação de um questionário estruturado, desenvolvido a partir de revisão de literatura e de etapas exploratórias anteriores, submetido a dois ciclos de teste em grupo focal antes de sua aplicação final.

Figura 1: Infográfico de amostragem e métodos.

Fonte: autores (2025).

O instrumento, aplicado on-line entre novembro e dezembro de 2023, foi respondido por 545 indivíduos residentes em áreas urbanas das regiões Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil (as mais urbanizadas e, portanto, mais representativas do fenômeno), com predomínio de respondentes de renda média e alta e elevado nível educacional, refletindo um recorte deliberado sobre os segmentos mais integrados ao mercado formal da habitação. As respostas foram analisadas por meio de técnicas estatísticas multivariadas, incluindo análise fatorial exploratória, com extração por máxima verossimilhança e rotação oblíqua, para identificação de fatores latentes associados às aspirações habitacionais, e testes não paramétricos de variância (Kruskal-Wallis), seguidos de comparações post hoc, para examinar diferenças significativas entre as quatro gerações. Embora reconheça as limitações inerentes a levantamentos on-line e à heterogeneidade interna dos grupos geracionais, o artigo sustenta que esse desenho permite capturar padrões robustos de aspirações e suas tensões com as condições estruturais de acesso à moradia, oferecendo uma base empírica consistente para o diálogo entre mercados formais de habitação, ciclos de vida e transformações intergeracionais no contexto brasileiro.

 

O que apontam os resultados?

 

Os resultados do estudo indicam que as aspirações habitacionais no Brasil contemporâneo se organizam em torno de três perfis distintos que expressam diferentes formas de articular moradia, segurança, investimento e projeto de vida. O primeiro perfil, denominado tradicional, associa fortemente a casa própria à estabilidade doméstica, à segurança social e ao pertencimento, tratando o aluguel como solução provisória ou indesejada. Esse perfil permanece particularmente robusto entre os Boomers, mas também se manifesta entre indivíduos com elevado capital cultural e restrições econômicas, para os quais a propriedade segue sendo um ideal normativo, ainda que de difícil concretização. O segundo perfil, pragmático, também valoriza a propriedade, porém a partir de uma lógica instrumental, na qual o imóvel é concebido prioritariamente como ativo financeiro seguro e superior a outros investimentos, refletindo trajetórias marcadas por experiências de instabilidade econômica e desconfiança em relação aos mercados financeiros. Já o terceiro perfil, flexível, desvincula a segurança econômica da posse do imóvel, prioriza liquidez para o capital, mobilidade interurbana e consumo de experiências que tragam sensação imediata de felicidade, além de interpretar a moradia como um serviço ajustável às fases da vida, sem, contudo, eliminar completamente o horizonte da propriedade quando o indivíduo se imagina na terceira idade.

A análise intergeracional mostra que esses perfis não se distribuem de forma homogênea entre as gerações. Os Boomers apresentam maior adesão aos perfis tradicional e pragmático, evidenciando a persistência de uma cultura patrimonial fortemente ancorada na casa própria como eixo de segurança e realização. A Geração X também tende a aderir ao perfil pragmático e aspirar à casa própria como meio de proteger seu capital-dinheiro de volatilidade. As gerações mais jovens, Geração Y e Geração Z, demonstram maior abertura a elementos do perfil flexível, relativizando a centralidade imediata da propriedade e valorizando estratégias de aluguel e investimento financeiro.

No entanto, os testes de variância revelam que essa flexibilidade é contingente e situacional: quando esses jovens projetam suas aspirações para a terceira idade, a ampla maioria dos respondentes, cerca de 95%, independentemente da geração, manifesta o desejo de envelhecer em um imóvel próprio. Esse descompasso entre estratégias habitacionais no presente e aspirações de longo prazo sustenta o argumento central do artigo de que a financeirização dos mercados de aluguel e a retórica da flexibilidade não produzem uma ruptura, mas sim um adiamento aspiracional da casa própria: a postergação do sonho sem sua substituição definitiva por formas alternativas de morar. Assim, os resultados sugerem que as transformações recentes nos mercados habitacionais reprogramam os arranjos habitacionais temporalmente, aprofundando tensões entre expectativas socialmente construídas e condições materiais de acesso.

 

Como isso pode informar decisões individuais e coletivas e fortalecer o papel social da pesquisa?

 

Os achados do estudo oferecem subsídios tanto para decisões individuais quanto para a formulação de políticas públicas e estratégias coletivas, pois desmontam leituras simplificadas sobre uma suposta transição definitiva para a moradia alugada, como se a casa própria não fosse mais o grande sonho de vida de outrora. Mas isso não se confirma!

Ao demonstrar que a adesão das gerações mais jovens a arranjos flexíveis está fortemente associada ao estágio do ciclo de vida e às restrições estruturais do mercado, e não à rejeição do ideal da casa própria, a pesquisa recoloca o debate habitacional em bases realistas e socialmente informadas. Para indivíduos e famílias, os resultados explicitam as tensões entre escolhas de curto prazo e aspirações de longo prazo, evidenciando que decisões aparentemente racionais no presente podem implicar riscos futuros, especialmente em contextos de fragilidade previdenciária e de valorização persistente do imóvel como forma de segurança social.

No plano coletivo, o artigo alerta para os limites das narrativas de mercado que promovem a flexibilidade como solução universal, ao revelar que tais discursos tendem a produzir o que os autores denominam adiamento aspiracional. Além disso, a introdução dos conceitos de efeito de experiência e efeito de ajuste (à realidade) permite compreender como as aspirações se transformam ao longo do tempo, não por ruptura, mas por reacomodação dialética entre expectativas herdadas e condições materiais. Esses conceitos oferecem ferramentas analíticas ao planejamento urbano e à política habitacional ao indicar que estratégias voltadas exclusivamente à ampliação do mercado de aluguel podem aprofundar vulnerabilidades futuras, caso não sejam acompanhadas de mecanismos de proteção social, acesso progressivo à propriedade ou alternativas estáveis de moradia ao longo do ciclo de vida.

Figura 2: Infográfico publicado no IJURR indicando as relações entre os conceitos propostos

Fonte: autores (2025).

Ao situar essas dinâmicas no contexto brasileiro, marcado pela centralidade histórica da casa própria, inclusive a informal, como forma de proteção social em um Estado de bem-estar frágil, a pesquisa reforça o papel social do conhecimento científico na qualificação do debate público sobre habitação. Mais do que descrever preferências, o estudo evidencia como as aspirações são moldadas por estruturas institucionais, regimes financeiros e discursos hegemônicos, convidando pesquisadores, formuladores de políticas e atores do mercado a refletirem sobre suas responsabilidades na produção de expectativas sociais. O artigo contribui para fortalecer a pesquisa urbana como instrumento crítico, capaz de iluminar escolhas individuais e coletivas, tensionar soluções aparentemente neutras e orientar respostas mais justas e sustentáveis para um dos problemas centrais das cidades contemporâneas.

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