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Os 40 anos da Escola Municipal Leonardo Boff e a memória de luta da Comunidade do Contorno

Publicado em 17/07/2026

CATEGORIAS: Boletim IPPUR, Destaques

Boletim nº 97, 17 de julho de 2026

Laila Leite Alves
Estudante de Ciências Sociais e Extensionista da Agência IPPUR

Localizada às margens da BR-040, em Petrópolis, a comunidade do Contorno construiu ao longo de sua história uma memória de mobilização e organização comunitária em defesa dos direitos de seus moradores. Um dos principais marcos dessa trajetória foi a construção da Escola Municipal Leonardo Boff, fruto da luta coletiva da comunidade.

Inaugurada em 1986, a escola foi construída por meio de mutirões organizados pela própria comunidade, tornando-se muito mais do que um espaço destinado à educação formal, mas um ponto de encontro dos moradores e importante espaço para a mobilização dessa comunidade, além de um símbolo das conquistas alcançadas pela luta comunitária.

Em 2026, a Escola Municipal Leonardo Boff celebra seus 40 anos de existência. A data marca não apenas o aniversário da instituição, mas também quatro décadas de compromisso comunitário com a construção de uma educação pública de qualidade, desenvolvida a partir das necessidades e da realidade local, distinguindo-se das práticas educacionais tradicionalmente adotadas no município. Para relembrar essa história e refletir sobre os desafios e conquistas ao longo desses anos, conversamos com Dona Angélica, uma das primeiras professoras da escola, diretora da instituição e moradora da comunidade, que compartilha suas memórias sobre a trajetória da escola e da luta coletiva que possibilitou sua existência.

Pergunta: A Escola Municipal Leonardo Boff completa 40 anos marcada por uma trajetória de mobilização, organização e luta comunitária. De que maneira as demandas históricas da Comunidade do Contorno se articulam com o processo de criação e consolidação da escola?

Angélica: As demandas históricas da comunidade e o processo de criação e consolidação da escola caminharam juntos desde o início. Na década de 1980, quando começamos os trabalhos de organização social por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), uma das principais necessidades apontadas pelos moradores era a construção de uma escola que atendesse as crianças da comunidade.

Esse desejo era compartilhado não apenas pelos adultos, mas também pelas próprias crianças, que participavam das reuniões e demonstravam entusiasmo com a possibilidade de estudar dentro do território onde viviam. As famílias se envolveram profundamente nesse projeto, as crianças tiveram a oportunidade de participar dos mutirões e de diversas atividades relacionadas à construção da escola.

Todo esse processo foi marcado pela reflexão, pela ação coletiva e pela crença de que a transformação era possível. A comunidade acreditava na força dos encontros que fortaleciam os vínculos entre as pessoas, ao mesmo tempo em que organizavam os mutirões realizados nos fins de semana. Esses momentos combinavam trabalho prático com reflexão sobre a realidade vivida e sobre os objetivos que se pretendiam alcançar.

Assim, foi sendo construída uma trajetória coletiva que envolveu mulheres, homens, crianças, apoiadores, voluntários e parceiros. O projeto, iniciado na década de 1980, cresceu gradualmente à medida que novas etapas eram vencidas: a obtenção de materiais, as articulações políticas, as reuniões com diferentes instituições e, posteriormente, as melhorias e ampliações da própria escola.

Houve, desde o início, um processo de organização e planejamento que transformou reflexões em ações concretas. Com o tempo, a participação da comunidade aumentou, fortalecendo a confiança coletiva e ampliando a capacidade de realização do grupo. Embora as condições fossem simples e muitas vezes precárias, havia um enorme envolvimento das pessoas, que se dedicavam de corpo e alma à construção desse projeto.

Ao olhar para essa trajetória de quarenta anos, percebemos que a escola nasceu de uma força coletiva baseada na participação, na solidariedade e na esperança. Ao longo do tempo, novas demandas surgiram, os contextos políticos se transformaram e a própria comunidade se renovou. Ainda assim, permanece viva a memória de uma experiência marcada pela capacidade de organização popular e pela convicção de que a ação coletiva pode produzir mudanças concretas na realidade.

Pergunta: Durante o período de construção e consolidação da escola, quais foram os principais desafios enfrentados pela comunidade, especialmente no que diz respeito à disputa por espaço e à garantia de permanência dessa instituição no território?

Angélica: Ao longo de toda a nossa trajetória, sempre enfrentamos desafios tanto dentro quanto fora da comunidade. São forças que, em determinados momentos, entram em tensão, mas que também podem se complementar. Há períodos em que a participação das pessoas diminui ou em que os processos parecem excessivamente burocráticos, gerando a sensação de estagnação e de pouca capacidade de avançar. No entanto, quando observamos com mais atenção, percebemos que esses momentos também são importantes para fortalecer os vínculos comunitários, os encontros e os espaços de diálogo que sustentam a organização coletiva.

Além dos desafios internos, enfrentamos constantemente disputas políticas. Muitas vezes, autoridades públicas assumem posturas de enfrentamento, desconsiderando ou desvalorizando a organização comunitária. Nesses momentos, é necessário reunir novas forças para lidar com o desgaste provocado por esses embates. Trata-se de uma arena de ideias e projetos distintos de sociedade, na qual precisamos reafirmar continuamente os compromissos que assumimos e os princípios que orientam nossa atuação.

As lutas da comunidade sempre estiveram ligadas ao direito à terra, à moradia digna, à infraestrutura urbana e à manutenção da escola construída pelos próprios moradores. São causas que se renovam ao longo do tempo e que nos impulsionam a seguir em frente. Cada desafio enfrentado também produz aprendizado, aproximando-nos de outras comunidades, universidades e experiências organizativas. Esse diálogo entre prática e teoria tem sido fundamental para fortalecer nossa atuação e ampliar nossa capacidade de reflexão.

A história da escola é inseparável desse processo de formação política da comunidade. Desde sua origem, a construção da escola foi também um processo educativo e organizativo. Homens, mulheres e crianças participaram não apenas da construção física do prédio, mas também de uma experiência coletiva de formação social e política. Ao aprender a se organizar, debater problemas comuns e tomar decisões coletivamente, a comunidade foi se constituindo como sujeito político.

Nesse sentido, a escola sempre representou mais do que um espaço de ensino. Ela foi um lugar de educação popular com aprendizagem democrática, onde se desenvolveu uma cultura de participação, diálogo, escuta e responsabilidade coletiva. Enquanto a escola era construída, a comunidade aprendia a construir também formas mais democráticas de organização social.

Os desafios se intensificaram quando a escola passou a integrar a estrutura formal da rede pública de ensino. A partir desse momento, surgiram tensões relacionadas a aspectos burocráticos, metodológicos e filosóficos sobre o próprio sentido da educação. A comunidade, que havia desenvolvido uma prática participativa e dialógica, passou a conviver com diretrizes institucionais definidas por governos e administrações públicas que nem sempre compartilhavam os mesmos princípios ou em um cenário político mais desafiante as ações governamentais opunham-se veemente aos princípios comunitários.

Esse processo gerou discursos ideológicos em torno da concepção de educação, das ações gerenciadas pela associação de pais e professores da escola e da participação comunitária. Foi nesse contexto que muitos moradores vivenciaram aquilo que Paulo Freire chama de passagem para o “ser mais”: a transformação de uma visão fatalista da realidade para uma compreensão de si mesmos como sujeitos capazes de intervir e transformar o mundo.

Quando uma comunidade que aprendeu a se organizar coletivamente se depara com estruturas institucionais mais centralizadas, surgem inevitavelmente tensões políticas e ideológicas. Essas disputas não ocorrem apenas no plano do discurso, mas também nas práticas concretas que definem os rumos da escola e da própria comunidade.

Ao longo dos anos, essas experiências fortaleceram as relações coletivas dos moradores. Ao dialogar com outras lutas e outras experiências semelhantes, a comunidade passou a reconhecer melhor sua própria trajetória e a ampliar sua capacidade de resistência. Esse processo continua em curso, pois a defesa da escola e da participação comunitária exige constante mobilização diante das tentativas de cooptação, desmobilização ou enfraquecimento da organização popular.

Pergunta: Considerando o período posterior à sua fundação, qual tem sido o papel da escola, hoje, tanto como espaço educacional quanto como espaço de articulação comunitária? Em que medida a escola ainda se configura como um centro de mobilização social e política para a comunidade?

Angélica: Essa questão está muito relacionada à nossa dinâmica interna, desde a gênese até os desafios surgidos ao longo do tempo. A escola atravessou diferentes gerações: as crianças mudaram, as famílias mudaram e o próprio território de atuação da escola se ampliou. Hoje, recebemos estudantes não apenas da comunidade do Contorno, mas também de outras regiões, muitas vezes atraídos pela reputação que a escola construiu ao longo de sua história.

Um aspecto muito significativo é que a maior parte das famílias, ao matricular seu filho ou filha, chega até nós por indicação. Frequentemente, uma mãe procura a escola porque ouviu falar dela por meio de outra família, de um antigo estudante ou de alguém que teve uma experiência positiva aqui. Muitos ex-alunos, hoje adultos, pais e mães de família, mantêm uma memória afetiva da escola e compartilham suas experiências com outras pessoas. Eles falam da metodologia, da relação entre professores e estudantes, da convivência com as famílias e do modo como a criança é acolhida e valorizada.

Esse reconhecimento demonstra que a escola continua sendo uma referência para a comunidade. Ao mesmo tempo, convivemos com diferentes concepções de educação. Há famílias que ainda valorizam um modelo mais tradicional, centrado na competição e na avaliação como resultado final, constituído por um projeto político e ideológico que atende os interesses macroeconômicos. A nossa proposta, por outro lado, prioriza os processos de aprendizagem, as relações e os vínculos que constituem um modelo político de transformação social. A avaliação existe, mas é compreendida como parte do percurso educativo. Não é considerada como um mecanismo de classificação ou categorização oriundas de princípios liberais meritocráticos.

Desde o início da escola, uma das nossas principais preocupações foi construir uma educação que reconhecesse as crianças como sujeitos capazes de pensar, falar e participar ativamente do processo educativo. A valorização da infância sempre esteve no centro do nosso projeto pedagógico. Para mim, que fui a primeira professora e a primeira diretora da escola, essa foi uma aprendizagem fundamental. Ao longo dos anos, essa mesma preocupação esteve presente entre os demais educadores, nas famílias e em toda a comunidade.

Esse compromisso levou a escola a ampliar gradualmente sua atuação. Aumentamos a carga horária, desenvolvemos projetos, buscamos parcerias e procuramos criar condições para oferecer uma formação cada vez mais ampla às crianças. O objetivo sempre foi pensar a educação como uma experiência capaz de transformar a forma como as pessoas compreendem o mundo e atuam nele.

Muito cedo percebemos também a necessidade de criar instrumentos que garantissem juridicamente a existência e a autonomia da escola. Foi nesse contexto que surgiu a Associação de Pais e Professores da Escola Municipal Leonardo Boff. Seu estatuto foi elaborado coletivamente por pais, professores e membros da comunidade, com a participação das próprias crianças nos espaços de discussão e construção coletiva.

Esse estatuto tornou-se um documento fundamental. Ele não apenas protege a escola, mas também afirma princípios, valores e compromissos que orientam a vida comunitária. É um instrumento de defesa dos direitos das crianças, do território e das lutas sociais que deram origem à escola. Mais do que um documento administrativo, ele expressa uma concepção de educação baseada na participação, na inclusão e na transformação social.

Até hoje, é por meio desse estatuto que a comunidade dialoga com o poder público. A cada quatro anos, é renovado o acordo pelo qual a comunidade cede o espaço físico da escola ao município para que este cumpra sua obrigação constitucional de garantir a educação pública. Em contrapartida, cabe ao município assegurar recursos para o funcionamento da escola, incluindo manutenção do prédio, pagamento de profissionais, fornecimento de merenda, materiais pedagógicos e demais condições necessárias para o atendimento dos estudantes.

Essa experiência constitui uma referência importante de organização comunitária. Trata-se de um caso em que a própria comunidade construiu a escola e estabeleceu mecanismos institucionais capazes de garantir seu reconhecimento e sua continuidade. Entretanto, os desafios permanecem. Existem governos mais comprometidos com essa parceria e outros que tentam enfraquecê-la, dificultando investimentos, reduzindo recursos ou criando obstáculos à manutenção da educação em tempo integral.

Por isso, a mobilização comunitária continua sendo indispensável. A história da escola demonstra que sua existência e sua qualidade sempre dependeram da capacidade de organização coletiva da comunidade e de sua disposição permanente para defender os princípios que deram origem a esse projeto.

Pergunta: Pensando no futuro, existem projetos, propostas ou perspectivas de continuidade e ampliação das ações da escola enquanto espaço de formação, cultura e organização comunitária? De que forma a comunidade pretende manter viva essa trajetória de luta e participação?

Angélica: Essa é uma questão muito importante e, ao mesmo tempo, um grande desafio para todos nós. Faço parte da geração que participou do início dessa trajetória e estou chegando a um momento de encerramento de um ciclo profissional. Em breve deixarei de atuar como funcionária da escola, embora continue sendo moradora da comunidade e participante de suas lutas. São papéis diferentes, mas ambos permanecem profundamente ligados à história que construímos.

Ao longo dos anos, minha atuação como servidora pública e como militante comunitária se entrelaçou de muitas formas. Enquanto profissional da educação, sempre estive inserida em uma estrutura institucional que possui normas, hierarquias e responsabilidades específicas. Já na condição de moradora e integrante da Associação de Pais e Professores, participei de um espaço autônomo de organização comunitária, capaz de dialogar, reivindicar e defender os interesses coletivos da comunidade.

Essa distinção é importante porque revela uma das principais forças da nossa experiência. Os profissionais da escola atuam dentro dos limites estabelecidos pela estrutura administrativa do serviço público. A comunidade, por sua vez, organiza-se por meio de instituições próprias, desenvolve iniciativas autônomas e constrói estratégias de mobilização que ampliam sua capacidade de atuação política. É justamente esse equilíbrio entre participação comunitária e inserção institucional que tem permitido enfrentar muitos dos desafios surgidos ao longo da história da escola.

O futuro dependerá, sobretudo, da capacidade de organização das novas gerações. Muitas das respostas para os desafios que virão ainda não existem; elas serão construídas à medida que novos problemas surgirem e novas lideranças assumirem responsabilidades. O mais importante é que a comunidade mantenha viva a compreensão dos princípios que orientaram essa trajetória desde o início: participação, solidariedade, autonomia e compromisso coletivo.

Ao longo do tempo, aprendemos que a defesa da escola exige mobilização permanente. Isso envolve reuniões, elaboração de documentos, construção de parcerias, diálogo com universidades e instituições, além de processos contínuos de formação e estudo. São essas ações que fortalerde a comunidade e ajudam a equilibrar as disputas políticas e ideológicas que fazem parte da vida pública.

Nem sempre os resultados são aqueles que esperamos. Em alguns momentos conquistamos avanços importantes; em outros, enfrentamos retrocessos e dificuldades. Faz parte da própria dinâmica das lutas sociais. Há períodos de expansão e períodos de resistência. O fundamental é preservar a capacidade de organização coletiva para seguir enfrentando os desafios que surgem.

Nesse momento estamos avançando o projeto de construção de um centro comunitário. Historicamente, a escola tem funcionado como um espaço articulador da vida comunitária: grande parte das atividades coletivas realizadas pela comunidade acontece dentro da escola, especialmente nos fins de semana. A criação de novos espaços poderá ampliar essa capacidade de mobilização e permitir o desenvolvimento de outras iniciativas voltadas à formação, à cultura, à convivência e à melhoria da qualidade de vida dos moradores.

Nosso objetivo é fortalecer cada vez mais as formas autônomas de organização existentes no território. Acreditamos que a construção de novos espaços comunitários pode ampliar as oportunidades de participação e contribuir para que as futuras gerações deem continuidade a essa trajetória de luta, solidariedade e compromisso coletivo.

Em última instância, o futuro da escola e da própria comunidade dependerá da capacidade de preservar essa cultura de participação que foi construída ao longo de décadas. São as pessoas, seus vínculos e sua disposição para agir coletivamente que manterão viva essa história.

Pergunta: Quais atividades estão sendo realizadas para a celebração dos 40 anos da escola? Como tem sido o envolvimento da comunidade escolar — especialmente estudantes, famílias e moradores — nessas comemorações?

Angélica: As comemorações dos 40 anos têm sido uma oportunidade muito especial para revisitar nossa trajetória e recuperar memórias que ajudam a compreender a dimensão dessa experiência coletiva. Nesta semana, por exemplo, estamos organizando uma exposição com reportagens, fotografias e documentos produzidos ao longo dessas quatro décadas. Muitos desses materiais estavam guardados e agora estão sendo retomados para compor um grande painel de memória da escola e da comunidade.

Ao revisitar esses registros, percebemos algo que muitas vezes passa despercebido no cotidiano: a quantidade de esforços, desafios e conquistas que tornaram possível manter a escola funcionando e preservando a qualidade do trabalho desenvolvido ao longo dos anos. Quando estamos imersos na rotina, raramente nos damos conta da dimensão histórica do que estamos construindo. É somente ao olhar para trás que percebemos a riqueza dessa caminhada.

Ao longo desses quarenta anos, a escola se transformou muitas vezes. As gerações mudaram, os contextos sociais e políticos se modificaram e as próprias formas de participação comunitária foram se renovando. Nenhum ano foi igual ao outro. Cada período trouxe novos desafios, novas aprendizagens e novas formas de compreender a educação e a organização coletiva.

Ao mesmo tempo, essa trajetória também nos transforma individualmente. Quando entramos na escola, éramos pessoas diferentes daquelas que somos hoje. Cada experiência vivida, cada luta enfrentada e cada conquista alcançada deixaram marcas em nossa maneira de pensar e agir. De certa forma, carregamos dentro de nós várias versões de quem fomos ao longo desses anos, todas constituídas por esse processo coletivo de aprendizagem.

As comemorações também têm sido um momento importante para reconhecer não apenas as conquistas, mas também as fragilidades que acompanharam essa caminhada. Frequentemente falamos da força da comunidade, da capacidade de resistência e da permanência das lutas. No entanto, essa história também foi marcada por incertezas, dificuldades e momentos de grande vulnerabilidade. Muitas vezes caminhamos em uma linha tênue, equilibrando avanços e retrocessos, vitórias e derrotas. Reconhecer essa dimensão da experiência é igualmente importante para compreender a profundidade dessa trajetória.

Ao refletirmos sobre essas quatro décadas, percebemos ainda como determinadas questões permanecem atuais. Mudam os contextos, mudam os governos e mudam as gerações, mas muitos dos desafios continuam presentes. As lutas pelo direito à terra, à moradia digna, à participação comunitária e à construção de relações mais democráticas permanecem fazendo parte do cotidiano da comunidade. Em muitos aspectos, os temas que mobilizaram os moradores no início da história da escola continuam exigindo atenção e mobilização no presente.

Um dos aspectos mais marcantes dessa experiência é a dificuldade de separar completamente a história da escola da história da comunidade. Ao longo do tempo, ambas se constituíram de forma tão integrada que, muitas vezes, torna-se impossível compreender uma sem a outra. A escola não é apenas uma instituição educacional situada em determinado território; ela é também resultado da organização social, das lutas e dos projetos coletivos construídos pelos moradores. Da mesma forma, a comunidade encontrou na escola um espaço fundamental para sua articulação e fortalecimento.

Essa característica continua muito presente, embora hoje convivamos com novos desafios. Muitos professores que chegam à escola trazem experiências formadas em contextos mais tradicionais, onde os limites entre escola e comunidade são mais rígidos e bem definidos. Para eles, compreender uma instituição em que a participação comunitária faz parte da própria identidade escolar exige um processo de aprendizagem. É uma experiência diferente daquela vivida na maioria das escolas.

Por outro lado, também recebemos novos moradores que não participaram das lutas que deram origem à comunidade e à escola. São pessoas que encontram uma estrutura já consolidada, sem terem vivenciado diretamente os processos de mobilização que garantiram conquistas fundamentais, como o acesso à terra, à moradia, à infraestrutura urbana, ao transporte coletivo, à creche e à própria escola.

Por isso, um dos grandes desafios do presente é relembrar essa memória às novas gerações. Mais do que preservar documentos ou celebrar datas comemorativas, trata-se de criar condições para que as pessoas compreendam a história coletiva que tornou possível a realidade atual. É um processo ainda em aberto, cujos resultados só poderão ser plenamente avaliados no futuro.

Talvez o maior significado das comemorações dos 40 anos seja justamente esse: reafirmar a importância da memória como instrumento de formação, fortalecer os vínculos entre escola e comunidade e renovar o compromisso coletivo com a construção de uma educação participativa, democrática e socialmente comprometida.

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