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Publicado em 15/12/2025
Pesquisa de campo no Porto do Açu investiga a mercadejação das infraestruturas e os efeitos da transição energética
Publicado em 15/12/2025
CATEGORIAS: Boletim IPPUR, Destaques, Notícia PPGPUR, Notícias IPPUR
Boletim nº 92, 15 de dezembro de 2025
Lucas Reis
Mestrando em Planejamento Urbano e Regional no IPPUR/UFRJ e pesquisador do grupo Espaço & Poder.
Deborah Werner
Professora do IPPUR/UFRJ e pesquisadora do grupo Espaço & Poder
Foto: Os autores.
Nos dias 21 e 22 de outubro de 2025, pesquisadoras e pesquisadores do grupo de pesquisa Espaço & Poder (IPPUR/UFRJ), acompanhados de docentes e estudantes da UFF Campos, realizaram uma visita de campo aos municípios de Campos dos Goytacazes e São João da Barra (RJ), com foco no complexo portuário e industrial do Porto do Açu. A atividade integra o eixo empírico das investigações desenvolvidas pelo grupo sobre infraestruturas, mercados e territorialidades no contexto da transição energética e dialoga diretamente com o debate apresentado na Sessão Livre “Construção de mercados no capitalismo contemporâneo: infraestrutura, natureza e controle dos territórios”, da Semana IPPUR 2025.
A visita, organizada pelo professor Leandro Bruno (UFF/Campos), contou com a participação dos docentes Deborah Werner e Carlos Brandão e dos pesquisadores Lucas Reis Santos, Jéssica Rossone Alves e Wander Guerra, todos vinculados ao IPPUR/UFRJ. Contou ainda com os professores Zandor Gomes Mesquita (IF Fluminense/Campos) e Robson Santos Dias (IF Fluminense/Cabo Frio). Os pesquisadores visitaram as instalações portuárias, as áreas industriais e logísticas e as zonas de expansão associadas aos projetos de energia eólica offshore e hidrogênio verde, que vêm reposicionando o Açu como um novo polo energético no Norte Fluminense.

Com base em autores como Karl Polanyi, Michel Callon e Jamie Peck, as pesquisas do Grupo Espaço & Poder têm problematizado a formação de mercados não como fenômenos naturais, mas como arranjos sociotécnicos e institucionais, articulados por políticas públicas, marcos regulatórios e práticas corporativas.
A visita permitiu observar in loco a reconfiguração territorial em curso e as contradições entre o discurso da “transição verde” e as formas neoliberais de provisão das infraestruturas. O Porto do Açu, originalmente concebido como polo de apoio à indústria de petróleo e mineração, pode vir a ser um laboratório da mercadejação da natureza em um contexto de transição energética, em que o vento e o sol são convertidos em ativos energéticos sob governança corporativa e incentivos estatais. Nesse processo, o Estado atua como garantidor das condições de mercado, enquanto o território é reconfigurado para atender às cadeias globais de descarbonização — um movimento que, longe de neutralizar desigualdades, tende a reproduzir padrões de dependência e extrativismo verde.
A atividade de campo também possibilitou refletir sobre a financeirização das infraestruturas e o papel do capital fixo territorial na expansão dos mercados de energia e logística. Nesse sentido, o Porto do Açu exemplifica como as fronteiras entre infraestrutura, natureza e controle territorial são reconfiguradas pela mercadejação neoliberal. Trata-se de um processo que transforma territórios em plataformas de valorização e reforça o “tripé do capitalismo contemporâneo”: a financeirização, a plataformização e a hegemonia neoliberal, conforme propõe Pessanha (2024).

A pesquisa de campo reforça o compromisso do Espaço & Poder com a articulação entre ensino, pesquisa e extensão, e com a produção crítica sobre os efeitos territoriais da transição energética no Brasil. O grupo pretende aprofundar o debate em futuras publicações e atividades, contribuindo para pensar condições de uma transição justa, com redistribuição de benefícios, soberania energética e participação social nos processos decisórios.
Referências
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BRANDÃO, Carlos. Construção social de uma variedade de mercados: capitalização de rendas e capitalismo de plataforma. GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, v. 28, n. 1, e-211385, jan./abr. 2024. DOI: 10.11606/issn.2179-0892.geousp.2024.211385. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/geousp/article/view/211385. Acesso em: 30 out. 2025.
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DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
PESSANHA, R. M. Infraestrutura digital, extrativismo Hi-Tech (ExHT) e capitalismo de plataformas: artérias digitais escancaradas da América Latina – Uma homenagem a Galeano. In: PEREIRA JÚNIOR, E. et al. (orgs.). As geografias da economia política da América Latina. Rio de Janeiro: Consequência, 2024.
WERNER, D.; BRANDÃO, C. Infraestrutura e produção social do espaço: anotações sobre suas principais mediações teóricas. Revista Brasileira de Gestão e Desenvolvimento Regional, v. 15, n. 5, 2019.
WERNER, Deborah. Marketization y neoextractivismo en la generación de energía eólica offshore en el estado de Río de Janeiro, Brasil. Revista de geografía Norte Grande, Santiago, n. 92, set. 2025. DOI: 10.4067/S0718-34022025000300106. Disponível em: https://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0718-34022025000300106. Acesso em: 30 out. 2025.



