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Reflexões comunitárias no Museu da Maré: a memória coletiva e a construção de sentidos de comunidade
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CATEGORIAS: Boletim IPPUR, Destaques
Boletim nº 95, 15 de maio de 2026
Jullia Martins
Graduanda em Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social (GPDES/UFRJ) e extensionista da Agência IPPUR
Mariana Guimarães
Graduanda em Arquitetura e Urbanismo (FAU/UFRJ) e extensionista da Agência IPPUR
Foto: Arquivo pessoal, 2026.
No dia 13 de abril, a equipe da Agência IPPUR organizou uma visita ao Museu da Maré com extensionistas do projeto e lideranças da Comunidade do Contorno, de Petrópolis, e do Museu das Remoções, da Vila Autódromo. A atividade fez parte de uma das frentes atuais de trabalho da Agência, que consiste em uma parceria com as lideranças da Comunidade do Contorno, que comemora, no ano de 2026, 40 anos da Escola Municipal Leonardo Boff, que está no centro das lutas da comunidade por permanência e qualidade de vida em seu território. Assim, buscamos estabelecer interlocuções com outros grupos e entidades envolvidos com a questão da memória, tema caro para o histórico de resistência da Comunidade do Contorno.
O Museu da Maré configura-se como primeiro “Museu das Favelas”, caracterizado como um museu social e comunitário, criado para preservar a memória, a cultura e a história do território da Maré e das lutas de seus moradores. Como já relatado em um trabalho anterior publicado no Boletim IPPUR [1] Nota de rodapé:
https://ippur.ufrj.br/museu-da-mare-e-a-producao-de-cultura-e-memoria-pelas-e-para-as-favelas/, o Museu foi criado em 2006 a partir de uma organização comunitária do complexo dedicada à promoção do acesso à cultura no território, e seu acervo se constitui majoritariamente a partir de doações dos moradores. Assim, é construída uma experiência imersiva que se divide em 12 “tempos”, que representam temas que abordam a história do Complexo da Maré.
A visita foi profundamente marcada por discussões sobre a preservação da memória coletiva e seu papel na formação e no fortalecimento de comunidades que possuem trajetórias históricas que se aproximam e se conectam. O atravessamento dos tempos nos quais se organiza o percurso pelo acervo fomentou uma rica troca entre os participantes sobre a importância da memória individual e coletiva e também sobre o papel da memória como ferramenta de luta e de resistência.
Tornou-se evidente que a história, para além de um registro do passado, é um elemento vital para a existência dos sujeitos e das comunidades. Emily Santos, moradora da Comunidade do Contorno, professora de slam e poeta, relatou ao passarmos pelo Tempo da Casa: “Se eu perder a minha memória, parte de mim morre”, referindo-se à perda de lembranças de infância no desastre da cratera na Comunidade do Contorno em 2017 [2] Nota de rodapé:
No dia 07 de novembro de 2017, um desabamento causado por negligências da Concer, empresa responsável pelas obras do túnel Nova Subida da Serra, abriu uma cratera de 70 metros de profundidade na comunidade do Contorno, levando à interdição de 55 residências, além da Escola Municipal Leonardo Boff. Saiba mais sobre o caso: https://g1.globo.com/rj/regiao-serrana/noticia/2018/10/19/onze-meses-apos-abertura-de-cratera-escola-e-acesso-de-comunidade-sao-liberados-em-petropolis-no-rj.ghtml.
Trata-se de um tipo de afetividade construída nas relações cotidianas, nas experiências compartilhadas e nos vínculos que dão sentido ao território e que também o excedem. A preservação da memória de um território periférico se encontra e se entrelaça com a vivência de diversos outros territórios. Nesse contexto, a museologia social rompe com os modelos tradicionais de produção e construção de espaços de memória ao valorizar narrativas locais e reconhecer os moradores do território como protagonistas de sua própria história.
Foto: Arquivo pessoal, 2026.
Dessa forma, as reflexões mobilizadas pela visita foram muito marcadas pelo tema da perda referente a espaços, direitos, memória, atentando para a relevância desses aspectos da vida para a construção social de comunidade para além do cotidiano. Assim, os processos de perda podem intensificar o valor atribuído tanto à memória quanto ao território. E é nesse processo que a arte surge como uma forma muito importante de resistência e de pertencimento, capaz de traduzir vivências, denunciar apagamentos e fortalecer as identidades coletivas. Nessas conjunturas, a arte é usada como maneira de fortalecimento comunitário, potencializando saberes, experiências e formas de organização que sustentam as lutas por reconhecimento e permanência.
Voltando ao Museu da Maré, a instalação intitulada Tempo do Medo, ilustra os medos passados e presentes da comunidade. Os medos do passado são retratados por fotografias de crianças brincando nas palafitas — origem das moradias da favela da Maré, entre as décadas de 1940 e 1950 —, demonstrando o medo de perder um filho para a maré. Já os medos do tempo presente são representados por uma urna com cápsulas de projéteis encontradas na própria comunidade após troca de tiros. Assim, a memória coletiva se afirma como mais do que lembrança, mas como instrumento ativo de construção e continuidade de comunidades periféricas através de suas lutas.
Por fim, a experiência da visita ao Museu da Maré destaca que iniciativas como essa não apenas preservam o passado, mas também produzem e inspiram formas ativas de resistência no presente. Ao afirmar a memória como um direito e ferramenta política, os museus sociais contribuem diretamente para a valorização dos territórios periféricos e para o fortalecimento das lutas por reconhecimento, permanência e dignidade. Dessa forma, mais do que espaço expositivo, o Museu da Maré se consolida como um espaço de produção de conhecimento, de articulação comunitária e de afirmação de identidades historicamente marginalizadas. Assim, se perder a memória é perder parte de si, como construir, a partir dela, caminhos de continuidade e fortalecimento para comunidades como o Contorno, inspiradas pela experiência do Museu da Maré?




