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Visita de campo do GPDES ao Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos
Publicado em 17/07/2026
CATEGORIAS: Boletim IPPUR, Destaques
Boletim nº 97, 17 de julho de 2026
Alandha Wergles
Graduanda do GPDES e extensionista da Agência IPPUR
A cidade de São João Marcos surgiu com a construção de uma pequena capela dedicada a São João Marcos na região da Serra do Piloto, no município de Mangaratiba, RJ. A partir dessa capela, formou-se um povoado que cresceu gradualmente devido à sua localização estratégica entre o litoral e o interior do estado do Rio de Janeiro. Durante o século XIX, no contexto do Segundo Reinado, São João Marcos transformou-se em uma das mais importantes regiões produtoras de café do Brasil, fazendo parte do chamado Vale do Paraíba Fluminense. O enriquecimento gerado pelo café levou ao desenvolvimento urbano, enquanto a monocultura intensiva provocou o desmatamento massivo da Mata Atlântica, além do esgotamento e da erosão do solo da região. No início do século XX, mesmo após o início da decadência do café, a cidade manteve uma infraestrutura avançada para sua época, com hospitais, escolas, sistema de iluminação, atividades comerciais diversificadas, entre outros serviços e equipamentos. Estima-se que a população tenha chegado a cerca de 18.000 ou 19.000 pessoas, considerando toda a região rural e a população escravizada durante o auge cafeeiro.
No dia 30 de maio deste ano, os estudantes da disciplina “serviços públicos e gestão pública” do curso de Gestão Pública da UFRJ, ministrada pela professora Suyá Quintslr (IPPUR/UFRJ), realizaram uma visita de campo ao sítio histórico do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos, a fim de se aprofundarem na história do surgimento, auge, decadência e destruição da antiga cidade. O ponto de virada na história de São João Marcos ocorreu com a autorização concedida à empresa “Light Brasil” para explorar o potencial hidrelétrico da região. Entre os anos de 1904 e 1905, teve início a construção do Reservatório de Ribeirão das Lajes, que começou a operar em 1908. Nessa mesma época, o Rio de Janeiro era a capital federal e passava por um intenso processo de modernização urbana como expansão industrial e iluminação pública. Com o passar das décadas, a demanda aumentou e as águas do sistema de Ribeirão das Lajes passaram a integrar o abastecimento de parte da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Assim, a represa sofreu sucessivos alteamentos, isto é, elevações da barragem.

Em 1939, a importância histórica da cidade foi reconhecida pelo governo federal, que promoveu o tombamento de São João Marcos. Porém, durante o governo de Getúlio Vargas, o tombamento foi revogado. Tal decisão permitiu a ampliação do reservatório, levando à tragédia definitiva da história local na década de 1940: casas foram desapropriadas, moradores foram indenizados e as famílias deixaram a região. Segundo os relatos apresentados pelo guia local do parque, muitas pessoas resistiram à saída. Houve grande insatisfação popular, e o processo de indenização gerou controvérsias. Após a retirada dos moradores, a empresa iniciou a destruição sistemática de elementos construídos da cidade como casarões, comércios, prédios públicos e a igreja matriz, que foi dinamitada. O objetivo foi impedir que os moradores retornassem quando o nível da água baixasse.
Após sua destruição, a cidade de São João Marcos permaneceu esquecida por décadas, entre os anos de 1940 a 2008. Com isso, a vegetação tomou conta das ruínas, muitas estruturas desapareceram e documentos históricos foram perdidos. Parte da memória local sobreviveu por meio de relatos dos descendentes, os quais foram apresentados aos alunos com a exibição do documentário “A História de São João Marcos”. Entre os anos de 2008 e 2011, houve a redescoberta e revitalização das ruínas da cidade com escavações arqueológicas, mapeamento urbano, recuperação de estruturas e estudos históricos. Os pesquisadores possuíam plantas, fotografias e registros da antiga cidade, o que permitiu reconstruir parte do traçado urbano original.


A história de São João Marcos evidencia como as decisões da gestão pública podem transformar profundamente um território e a vida de sua população. A destruição da cidade, na década de 1940, ocorreu em função de uma política voltada à ampliação dos serviços públicos de abastecimento de água e geração de energia elétrica para o Rio de Janeiro, o que se deu no contexto do processo de industrialização do país. O caso demonstra o desafio da administração pública em conciliar o interesse coletivo, representado pela expansão da infraestrutura, com a preservação do patrimônio histórico, cultural e dos direitos das comunidades afetadas, sendo um importante exemplo dos impactos das políticas públicas sobre a sociedade e o território.



